"Zona de Interesse" escancara o mal nosso de cada dia
- Marcio Weber
- 14 de fev. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 14 de fev. de 2024

O horror e as consequências inescapáveis da Segunda Guerra Mundial foram trazidos para arte e o cinema, obviamente, não ficou de fora, com muitos filmes realizados durante os próprios desdobramentos da guerra, como obras propagandísticas do Eixo, dos Aliados e até de películas que expõem os impactos "em tempo real" ou melhor dizendo um reflexo direto , podendo-se destacar o Neorrealismo italiano. A grande maioria dos filmes produzidos fora da ideologia nazista naturalmente enquadra e tece denúncias quanto à perversidade e ao mal como algo a ser detido.
Mas como eram alguns aspectos psicológicos de quem foi responsável direto pela implementação das atrocidades cometidas pelo regime? Como os adeptos se comportavam diante do incontestável tortura e violação de todos os direitos humanos possíveis, levando a milhões de óbitos e danos irreparáveis para a população mundial? Quais eram as expectativas dessas pessoas? Existia remorso, algum tipo de consciência sobre aquelas ações? Essas perguntas parecem ter motivado o cineasta Jonathan Glazer (“Sob a Pele”) a transportar para o cinema o livro de título homônimo do filme “Zona de Interesse”, do recém falecido, escritor Martin Amis.

“Zona de Interesse” se distingue de muitos olhares, abordagens sobre o Nazismo por inúmeros motivos, mas talvez o principal deles seja colocar alemães “arianos” realizando atividades mundanas e comuns no centro da história, ocupando um protagonismo incômodo – mas nunca despropositado. Afinal não foi assim que a história se desenhou?, mesmo que aconteça algo fora do normal e do aceitável, vivemos com as nossas próprias individualidades, desejos e inspirações.
O recorte, entretanto, não quer dizer que se negue as consequências atrozes do que aconteceu e como aconteceu; muito pelo contrário, a ênfase em pontuar os horrores, as mazelas e a destruição imposta produz um estigma de enfadonho, de naturalidade, uma documentação de como aqueles indivíduos não apenas não enxergavam a gravidade das ações, mas enxergavam de uma maneira prosaica e simplória, como se fosse possível viver com naturalidade, harmonia e jocosidade a enquanto há pessoas gritando numa câmara de gás, sendo fuziladas e mortas. Nada disso é ocultado, mas parece mais importante para aquelas pessoas? E essa resposta parece ensurdecedora dentro de uma coletânea de atitudes que parecem viver como se não houvesse amanhã, enquanto incontáveis pessoas tem o direito mínimo de existir sendo violado.

A agonia é ainda mais forte pelo flerte a uma estética documental adotada pelo cineasta, que recai em registros íntimos, aparentemente inofensivos, o que amplifica os elementos implementados pela linguagem cinematográfica que cresce substancialmente pelo estabelecimento histórico e a já citada busca pela observação contida, mas contrastada com recursos bem explorados, entre eles: A edição e mixagem de som, que materializam a violação humana capitaneada por Hitler e seus pares, reforçada por gritos, estrondos, é possível ouvir até tiros em uma relação de antítese entre o silêncio e barulho, ao colocá-los no extracampo (o que está acontecendo fora da ação) torna o filme ainda mais desconcertante. A compositora Mica Levi, assina mais um trabalho digno de nota, reforça um incômodo alucinante pelas composições calcadas em sons fortes e experimentais que elevam a dimensão crítica proposta por Amis, que também assina o roteiro com Glazer.
A sensação de estar em um ambiente de pesadelo não vem apenas do som, mas também da inquietude do cineasta em trazer elementos disruptivos e inesperados, como o uso de câmeras noturnas e efeitos visuais pontuais, que codificam as relações entre os personagens e carregam a narrativa de desconforto e a natureza sombria dos acontecimentos, embora às vezes possam parecer recursos excessivos. O diretor de fotografia, Lukazs Zal que chegou com este trabalho a terceira indicação ao Oscar, traz enquadramentos minuciosos que exploram com rigor e detalhe as paisagens e aproveita bem o posicionamento dos personagens para com esses lugares com sensações que da harmonia ao desconforto em pouco tempo.

A crítica do cineasta pode também ser lida para além do período histórico, uma vez que, numa sociedade pautada pela individualidade cada vez mais intensificada pela falsa sensação de anonimato da internet, o ato performático de ser usuário das redes sociais acaba por abarcar com frequência comportamentos tóxicos e frequentemente criminosos. A vilipendia humana se manifesta todos os dias, e ao escolher retratar um dos períodos mais devastadores e negativos da existência humana fazendo com que presenciamos um olhar indigesto, mas necessário, para refletirmos mais profundamente a ação do homem na nossa sociedade e como o mal pode ser espelhado em atos supostamente insignificantes, mesmo quando mata milhões de pessoas, portanto "Zona de Interesse" escancara o mal nosso de cada dia.
"Zona de Interesse" está em cartaz hoje em cinemas selecionados e terá expansão do circuito, na quinta, dia 15/02/2024.
FICHA TÉCNICA
Direção: Jonathan Glazer
Roteiro: Martin Amis, Jonathan Glazer
Produção: James Wilson
Elenco: Christian Friedel, Sandra Hüller, Johann Karhaus, Luis Noah Witte, Nele Ahrensmeier, Lilli Falk, Max Beck
Direção de Fotografia: Lukasz Zal
Trilha Sonora: Mica Levi
Montagem: Paul Watts
Gênero: Guerra/Drama
País: Reino Unido, Estados Unidos, Polônia
Ano: 2023
Duração: 104 minutos
Classificação Indicativa: 16 anos
Parabéns! Muito esclarecedor e didático!