Pedágio
- Marcio Weber
- 30 de nov. de 2023
- 4 min de leitura

Pouco mais de um ano depois da exibição de “Carvão”, longa-metragem que, entre outras premiações, faturou o de Melhor Primeira Direção para Carolina Markowicz e desencadeou fortes impressões pela abordagem singular de situar por meio de recursos narrativos e da exposição de situações particulares, recheadas de ironia e humor negro, as contradições e hipocrisias inerentes da natureza humana e da sociedade brasileira. Agora é a vez do aguardado segundo filme da diretora, “Pedágio”, novamente com Maeve Jinkings como protagonista.
O enredo situa o espectador no município de Cubatão, setor muito reconhecido pela forte presença industrial, sediado na região metropolitana de São Paulo, que outrora foi considerada a cidade mais poluente do mundo nos anos 70; a cidade registrou ocorrências graves pela emissão de substâncias tóxicas, apesar da mudança desse cenário mais temerário. O filme envolve uma funcionária de pedágio que se mostra apreensiva com a orientação sexual do filho e está inclinada a tomar uma medida drástica. A região é ainda dominada por fábricas, e é por meio dessa ambientação deliberadamente hostil, onde os cidadãos são envoltos por uma forte fumaça ao fundo, em um local pautado pelo progresso econômico, que se passa a narrativa.

Existem muitas semelhanças em relação ao trabalho anterior de Markowicz, especialmente no trabalho do contraditório, de colocar em cheque ao espectador as escolhas, a essência e moralidade de seus personagens e trazer para a tela um contexto regional e características que dificilmente poderiam ser transmitidas em outra localidade geográfica, mas também sem que isso seja uma característica restritiva e limitante para acompanhar o que se passa na trama. Entretanto, as proximidades param por aí; em “Pedágio”, existe um maior detalhamento e estudo da relação entre alguns dos personagens, principalmente no núcleo familiar que carrega o conflito central do filme.
Se por um lado Markowicz é hábil em envolver o espectador por meio da inclinação em mostrar um aspecto inusitado e até mesmo oculto do comportamento humano, ela consegue trabalhar situações que conciliam um choque de expectativas, um dos atributos mais marcantes de “Carvão”. Existe também, um olhar mais previsível e factual para aquela história, que é dividida claramente, em dois momentos; um arco mais dramático e gradual que vai explorando a vida de Suelen (Maeve Jinkings), entre as relações, o trabalho no pedágio da cidade, as escolhas, e como ela vai se moldando por situações que a desagradam. E tudo se espelha diretamente no filho, Tiquinho (Kauan Alvarenga), em especial como ele reage ao ambiente doméstico e os detalhes relativos às nuances do relacionamento dele com a mãe.

Outro aspecto que se desdobra nessa articulação, é a forte presença do humor negro que entra fortemente no filme a partir do segundo ato, e como esse recurso se manifesta ao longo da narrativa. Se por um lado, foi mais orgânico e espontâneo no projeto anterior, esse elemento é retomado de uma forma menos sutil, mais intrusiva, principalmente na figura do pastor estrangeiro interpretador por Isac Graça. O olhar corrosivo e pouco complacente para as instituições religiosas tem sido uma tendência para diversos outros cineastas como Anita Rocha da Silveira (Medusa), Gabriel Mascaro (Divino Amor), Mariana Bastos (Raquel 1:1). Em resultados variantes, aqui o risco da caricatura e da ridicularização enfraquecem um pouco a força do discurso, que parece mais ingênuo, reativo e pueril, mas que ainda sim, não afastam na totalidade a construção psicológica dos personagens, ainda que evidencie um elo mais frágil.
Carolina Markowicz mostra segurança em captar na tela as expressões, os contrastes, riscos e consegue desenhar, por meio de inúmeras situações bem colocadas, um percurso dramático percorrido pelos personagens e explora bem as relações entre o meio e o ambiente e elementos diegéticos e não diegéticos, isto é, da costura entre o que está presente na linguagem do filme e do que não está, e configura momentos interessantes.

O elenco é de longe, um dos principais trunfos deste filme, que conta com uma força da natureza, estabelecida pelo jovem Kauan Alvarenga, que mostra ainda mais sintonia com a cineasta (ele participou do curta “O Órfão") e demonstra muita segurança e espontaneidade para a câmera. Maeve Jinkings volta a interpretar uma personagem difícil e complexa, e ela consegue transpassar uma sensação crível e abarca com destrezas as diversas nuances presentes na personagem; outra colaboradora regular de Markowicz, Aline Marta Maia, traz uma personificação muito característica da pessoa intrometida, que incentiva e alimenta um ódio, mas que carrega um poço de contradições nas próprias atitudes.
“Pedágio”, pode não corresponder às altas expectativas geradas pelo sucesso de “Carvão”, mas ainda, sim, consolida a voz e a singularidade de uma cineasta que demonstra escolhas firmes e corajosas. E mesmo que talvez as ambições possam ter comprometido o saldo final, mostra um dos principais nomes a serem observados dentro do cinema brasileiro contemporâneo.
O filme estreia hoje, exclusivamente nos cinemas.
FICHA TÉCNICA
Direção: Carolina Markowicz
Roteiro: Carolina Markowicz
Produção: Karen Castanho, Luís Urbano, Bianca Villar, Fernando Fraiha, Sandro Aguilar
Produção associada: Jorge Furtado
Coprodução: Carolina Markowicz, Mario Peixoto, Thalita Zaher
Direção de Arte: Vicente Saldanha
Direção de Fotografia: Luis Armando Arteaga
Som Direto: André Bellentani
Trilha Sonora: Filipe Derado
Edição: Lautaro Colace, RicardoSaraiva
Figurino: Marcia Nascimento
Elenco e Personagens: Maeve Jinkings (Suelen), Kauan Alvarenga (Tiquinho), Thomás Aquino (Arauto), Aline Marta Maia (Telma), Isac Graça (Pastor Isac)
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